No dia 03 de novembro de 2010, em sessão conjunta dos três Conselhos Superiores da Universidade Federal Fluminense (Conselho Universitário, Conselho de Ensino e Pesquisa e Conselho de Curadores), reunidos para eleição do novo Vice-Reitor da Universidade e elaboração da lista tríplice a ser enviada ao Ministério da Educação, apresentei a minha renúncia a sete meses que me restavam de mandato (até 18 de junho de 2011), a fim de permitir a coincidência de mandatos entre Reitor e Vice-Reitor na UFF. Abaixo reproduzo na íntegra o discurso que proferi na ocasião e que consta no Processo enviado a Brasília para viabilizar a antecipação da posse do novo Vice-Reitor.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
Reunião Extraordinária Conjunta dos Conselhos Superiores para Elaboração da Lista Tríplice para Escolha de Vice-Reitor da UFF
Auditório da Escola de Engenharia – Rua Passo da Pátria, 156, São Domingos, Niterói-RJ
03 de novembro de 2010
Prezados Conselheiros, Sr. Presidente, Magnífico Reitor Prof. Roberto de Souza Salles,
O Brasil acaba de viver um momento riquíssimo e pedagógico quando a população em sua expressiva maioria optou pela continuação de um projeto de Governo que, conquanto tenha tido erros, colocou em curso uma forma de governar onde a agenda social recuperou seu protagonismo. A virulência do processo, com grande parte da imprensa se posicionando de forma parcial e com agressividade contra a candidata que veio a ser tornar a primeira Presidente mulher da história brasileira, só colocou em destaque a firmeza e sustentabilidade da jovem democracia brasileira.
Aqueles como eu que ao longo da vida abraçaram uma perspectiva política de esquerda, na melhor tradição da luta democrática por igualdade e liberdade, continuamos acreditando no acerto do caminho até aqui trilhado pelo Governo do Presidente Lula, mesmo que tenha havido pedras, espinhos e poeira. Preferimos que seja assim ao invés do caminho fácil da estrada asfaltada que, pasteurizando e homogeneizando os caminhos, nos levava em alta velocidade para uma terra de submissão, de vergonha e de exclusão.
É neste quadro complexo e desafiante e reconhecendo a absoluta prioridade das grandes questões nacionais, as quais nos têm exigido esforços, empenho e energia intelectual e prática, mas é também com a convicção de que grandes questões e compromissos não se sustentam sem coerência nas pequenas atitudes, ali, no nível onde podemos efetivamente operar, que venho, na condição de Vice-Reitor da Universidade Federal Fluminense, apresentar à Vossa Magnificência e aos Ilustríssimos Conselheiros presentes minha renúncia ao honroso cargo de Vice-Reitor a partir do dia do encerramento deste mandato atual de Vossa Magnificência que ocorrerá em 22 de novembro de 2010. Passo a comentar rapidamente as razões e motivações do meu pedido.
Dentre o folclore das explicações que encontrei para a defasagem de mandato entre o Reitor e o Vice-Reitor na nossa Universidade não encontrei nenhuma resposta razoável que justificasse a medida e que pudesse compensar, de alguma forma, o ganho real que, na minha modesta opinião, se alcançaria se Reitor e Vice formassem desde o início uma equipe coesa em torno de um projeto estratégico claro, reconhecido e legitimado pela comunidade acadêmica, que os elegeu como dirigentes máximos.
Não excluo a possibilidade de o meu diagnóstico ser influenciado por uma incorrigível incompetência política ou incapacidade no manejo da complexa e importante arte da negociação, tomado que sou às vezes por ímpetos que alguns amigos carinhosos minimizam com a alcunha, pra mim de qualquer forma, um católico fervoroso, honrosa, de messiânicos e que outros amigos, querendo ser mais técnicos, qualificam de wishfulthinking, a mania de tomar o desejo pela realidade e tomar decisões ou seguir raciocínios baseados no desejo mais do que nos fatos e dados.
Quando da minha posse como Vice-Reitor, em 18 de junho de 2007, eu dizia textualmente:
“Eu preferia ter tomado posse junto com o Reitor, há sete meses atrás, numa cerimônia cujo centro fosse o projeto político-institucional que denominamos “A UFF somos todos nós”, chamando a atenção para uma referência inclusivista que identificávamos como o principal desafio para o governo desta organização tão complexa, rica e plural que é a universidade. Uma cerimônia onde eu aparecesse apenas como um entre os vários fiadores deste projeto (o que de fato sou), o segundo, o vice na escala hierárquica cujo topo é o próprio reitor, meu estimado amigo Prof. Roberto Salles.
Não tendo podido ser assim por conta da defasagem de mandatos do Reitor e do Vice na nossa universidade, cuidei de manifestar por ocasião da minha eleição nos Conselhos Superiores, e reafirmo a mesma disposição agora, a intenção de encerrar o meu mandato no mesmo dia do encerramento do mandato do Prof. Roberto Salles, abdicando de sete meses de mandato em favor de permitir que nossos sucessores possam ter toda a liberdade para formar por inteiro as suas equipes e implementar desde o princípio o projeto que enunciarem e anunciarem para a comunidade acadêmica, sendo por ela referendado. Faço isso por amor a nossa Universidade Federal Fluminense.”
Pois é justamente isso que estou tratando de fazer neste momento. Faço-o com a sensação de dever cumprido. Podia ter sido melhor, não tenho dúvida. Se começasse tudo de novo faria muitas coisas diferentes. Seria mais comedido, conversaria mais antes de decidir, controlaria meu wishfulthinking, seria mais equilibrado nas disputas, sacrificaria menos meu trabalho de pesquisa, escreveria mais etc. Sobretudo, buscaria construir uma relação mais amiga e profissional com o Reitor.
Entretanto os resultados globais do trabalho e da minha experiência foram positivos. Conheci e convivi com muita gente dedicada à construção de uma universidade pública de qualidade. Estive a frente da Comissão Mista de Orçamento e Metas ao longo de todo o período. Agradeço ao trabalho e a dedicação de todos que direta ou indiretamente somaram esforços para manter operando aquela experiência de orçamento participativo que talvez seja das mais avançadas das universidades federais. Ali se pensou globalmente e agiu-se localmente. Ali se forjou o macroplanejamento do REUNI, com as exigências de autonomia e transparência as quais foram sinalizações deste próprio Conselho Universitário. Também ao Reitor Roberto Salles cabe um registro da sua atitude respeitosa com a Comissão Mista como espaço democrático de decisões estratégicas. Mesmo nos momentos de maior tensionamento, o que é natural em atividades estratégicas, ele respeitou e compareceu ao espaço da Comissão Mista.
Finalmente, não podia deixar de agradecer o convívio e as amizades que construí neste Conselho ao longo de todo o período. Aqui aprendi a conhecer e respeitar a nossa Universidade, enxergando o conflito e os paradoxos da gestão como pólos dialéticos que precisam ser sintetizados com respeito a todas as posições existentes. Foi um exercício de democracia que levo para o resto da minha vida. Despeço-me desejando a todos paz e bem para que possam continuar a construir a universidade que todos queremos e que o povo brasileiro merece.
Termino com São Paulo na Segunda Carta a Timóteo quando diz: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. Desejo ao Magnífico Reitor Prof. Roberto Salles e ao amigo Sidney Mello, nosso próximo Vice-Reitor, muita luz, sabedoria e sorte para levar a frente essa desafiante e honrosa tarefa de dirigir a Universidade Federal Fluminense.
Que Deus os ilumine!
___________________________
EMMANUEL PAIVA DE ANDRADE
Matrícula SIAPE 0311735
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Legítimo desabafo, renovada esperança!
A página da UFF no dia 21 de maio de 2010 publicou em primeiríssima mão, tão logo encerrou a apuração da consulta à comunidade acadêmica: Roberto Salles é reeleito Reitor da Universidade Federal Fluminense.
Minha primeira vontade foi a de gritar como Baudelaire:
"Vagão, leva-me contigo! Navio, carrega-me daqui! Leva-me para longe, bem longe. Aqui a lama é feita das nossas lágrimas", Baudelaire
De fato gritei mesmo, usando a voz de Baudelaire, publicando meu grito no orkut, facebook e twitter! Mas se o grito foi um desabafo, meu espírito não se deteve aí. Concordo com as palavras de um professor do Pólo Universitário de Campos dos Goytacazes, a quem tive a honra de conhecer durante campanha, herói da resistência numa luta quase solitária naquele Pólo, que dizia que "a despeito de todas as dificuldades encontradas nesse percurso, conseguimos nos fortalecer em busca de uma Universidade que desejamos e compreendemos mais democrática, mais compromissada, mais livre".
Foi uma luta difícil que, talvez por isso mesmo, ficará registrada nos anais das histórias de luta da UFF por uma autonomia que deve começar a partir de dentro. Mais do que nomes de pessoas, estava em jogo a necessidade e urgência de se construir e/ou aglutinar na universidade um campo democrático, crítico e com disposição para o desafio de gerir uma Universidade Pública da complexidade e do tamanho da UFF. Demos um passo muito importante.
Palharini e Bruno, os candidatos do campo democrático que apenas momentaneamente foram "derrotados", estão de parabéns, deram a sua cota de sacrifício e de empenho para a construção do campo. Todos os militantes (e que coisa boa a gente ainda poder falar de "militantes" e vê-los atuando, quando no campo adversário o que se via em grande parte eram pessoas contratadas para a campanha!!!) que se jogaram nessa luta heróica em tempos sombrios, como já dizia Hannah Arendt, estão igualmente de parabéns!
Por mais estranho que nos pareça, a Universidade reproduz, enquanto microcosmo, o macrocosmo da política brasileira, e quiça da política no mundo, onde a inexistência de projetos alternativos levou a uma hegemonia absoluta dos chamados valores de mercado e a um certo cinismo organizacional onde desaparecem a crítica e a estratégia para dar lugar a acomodação e a política de resultados, não importando o quanto estes sejam fragmentados, desconexos, precários e dissociados de um projeto institucional e/ou organizacional.
A boa notícia é que a Universidade no entanto não pode, sob pena de perder sua própria razão de ser, abrir mão da "crítica" e da "estratégia" como elementos estruturantes da sua trajetória. E a chapa Palharini e Bruno foi o esteio, a encarnação mesmo, do senso crítico e estratégico na nossa UFF que, dessa forma, mostra que a História não chegou ao fim. Tempos sombrios já foram superados em inúmeros momentos e continuarão a ser enquanto houver militantes da qualidade dos que se encontraram na campanha Palharini e Bruno.
Sinto-me feliz e recompensado por ter tido o privilégio de ter participado desse momento histórico na nossa Universidade ao lado de tanta gente valorosa!
Minha primeira vontade foi a de gritar como Baudelaire:
"Vagão, leva-me contigo! Navio, carrega-me daqui! Leva-me para longe, bem longe. Aqui a lama é feita das nossas lágrimas", Baudelaire
De fato gritei mesmo, usando a voz de Baudelaire, publicando meu grito no orkut, facebook e twitter! Mas se o grito foi um desabafo, meu espírito não se deteve aí. Concordo com as palavras de um professor do Pólo Universitário de Campos dos Goytacazes, a quem tive a honra de conhecer durante campanha, herói da resistência numa luta quase solitária naquele Pólo, que dizia que "a despeito de todas as dificuldades encontradas nesse percurso, conseguimos nos fortalecer em busca de uma Universidade que desejamos e compreendemos mais democrática, mais compromissada, mais livre".
Foi uma luta difícil que, talvez por isso mesmo, ficará registrada nos anais das histórias de luta da UFF por uma autonomia que deve começar a partir de dentro. Mais do que nomes de pessoas, estava em jogo a necessidade e urgência de se construir e/ou aglutinar na universidade um campo democrático, crítico e com disposição para o desafio de gerir uma Universidade Pública da complexidade e do tamanho da UFF. Demos um passo muito importante.
Palharini e Bruno, os candidatos do campo democrático que apenas momentaneamente foram "derrotados", estão de parabéns, deram a sua cota de sacrifício e de empenho para a construção do campo. Todos os militantes (e que coisa boa a gente ainda poder falar de "militantes" e vê-los atuando, quando no campo adversário o que se via em grande parte eram pessoas contratadas para a campanha!!!) que se jogaram nessa luta heróica em tempos sombrios, como já dizia Hannah Arendt, estão igualmente de parabéns!
Por mais estranho que nos pareça, a Universidade reproduz, enquanto microcosmo, o macrocosmo da política brasileira, e quiça da política no mundo, onde a inexistência de projetos alternativos levou a uma hegemonia absoluta dos chamados valores de mercado e a um certo cinismo organizacional onde desaparecem a crítica e a estratégia para dar lugar a acomodação e a política de resultados, não importando o quanto estes sejam fragmentados, desconexos, precários e dissociados de um projeto institucional e/ou organizacional.
A boa notícia é que a Universidade no entanto não pode, sob pena de perder sua própria razão de ser, abrir mão da "crítica" e da "estratégia" como elementos estruturantes da sua trajetória. E a chapa Palharini e Bruno foi o esteio, a encarnação mesmo, do senso crítico e estratégico na nossa UFF que, dessa forma, mostra que a História não chegou ao fim. Tempos sombrios já foram superados em inúmeros momentos e continuarão a ser enquanto houver militantes da qualidade dos que se encontraram na campanha Palharini e Bruno.
Sinto-me feliz e recompensado por ter tido o privilégio de ter participado desse momento histórico na nossa Universidade ao lado de tanta gente valorosa!
quarta-feira, 10 de março de 2010
Quem sabe faz a hora!
A Universidade Federal Fluminense vai eleger os seus novos Reitor e Vice-Reitor no próximo mês de maio de 2010, portanto daqui a um mês e meio. Essa parece ser uma eleição suis generis por algumas razões que passo a comentar.
Em primeiro lugar devem concorrer ao que tudo indica apenas duas candidaturas: a do atual Reitor (Roberto Salles) e a do Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (Francisco Palharini). Meu apoio explícito e engajado é pro Palharini, em oposição, portanto ao atual Reitor.
A universidade pública brasileira atravessa um momento riquíssimo de perspectivas positivas que, no entanto requer capacidade estratégica, comprometimento institucional, visão acadêmica e de gestão pública, compreensão dos desafios atuais da sociedade brasileira e suas inter-relações com a Universidade às quais vejo presentes apenas na candidatura do Palharini.
Vivemos apenas o início dessas perspectivas positivas quando o orçamento e a capacidade de investimento de todas as universidades públicas foram sensivelmente recuperados, a partir principalmente do segundo mandato do Presidente Lula. A nova capacidade de investimento disponibilizada a partir do REUNI (Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) colocou na UFF, por exemplo, recursos da ordem de R$ 142 milhões apenas para construção de prédios e laboratórios, autorizou concurso público para cerca de 500 novos docentes e 600 novos técnico-administrativos configurando uma expansão sem precedentes na história da universidade.
Tais investimentos, repita-se, generalizado por todas as universidades federais, constitui uma ação de governo em cumprimento a exigências do Plano Nacional de Educação que previa para o ano de 2010 a meta de 30% de jovens de 18 a 24 anos em universidades públicas. O projeto da UFF foi elaborado pelo conjunto das suas unidades acadêmicas (Faculdades, Institutos e Escolas) e se comprometeu com uma expansão de vagas discentes da ordem de 30%. Enfrentar e superar o desafio de expandir a universidade mantendo a qualidade do fazer acadêmico nas dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão transcende em muito a mera execução de obras civis que tem sido “apontada” pela candidatura da situação como a sua “marca” para pleitear a reeleição.
A candidatura Palharini conseguiu reunir em torno de si, talvez pela primeira vez na UFF e apesar de um contexto explícito de forte pressão fisiológica e clientelista, marca essa sim da gestão atual, a grande maioria dos quadros progressistas da universidade com visão acadêmica e estratégica. É a oportunidade que a UFF tem de fazer um acerto de contas com sua história, elevando o seu padrão de gestão institucional ao nível de qualidade e competência do seu corpo docente e técnico-administrativo, que têm garantido na ponta uma ação institucional progressista apesar dos dirigentes reacionários que se apossaram do poder na Universidade.
Em primeiro lugar devem concorrer ao que tudo indica apenas duas candidaturas: a do atual Reitor (Roberto Salles) e a do Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (Francisco Palharini). Meu apoio explícito e engajado é pro Palharini, em oposição, portanto ao atual Reitor.
A universidade pública brasileira atravessa um momento riquíssimo de perspectivas positivas que, no entanto requer capacidade estratégica, comprometimento institucional, visão acadêmica e de gestão pública, compreensão dos desafios atuais da sociedade brasileira e suas inter-relações com a Universidade às quais vejo presentes apenas na candidatura do Palharini.
Vivemos apenas o início dessas perspectivas positivas quando o orçamento e a capacidade de investimento de todas as universidades públicas foram sensivelmente recuperados, a partir principalmente do segundo mandato do Presidente Lula. A nova capacidade de investimento disponibilizada a partir do REUNI (Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) colocou na UFF, por exemplo, recursos da ordem de R$ 142 milhões apenas para construção de prédios e laboratórios, autorizou concurso público para cerca de 500 novos docentes e 600 novos técnico-administrativos configurando uma expansão sem precedentes na história da universidade.
Tais investimentos, repita-se, generalizado por todas as universidades federais, constitui uma ação de governo em cumprimento a exigências do Plano Nacional de Educação que previa para o ano de 2010 a meta de 30% de jovens de 18 a 24 anos em universidades públicas. O projeto da UFF foi elaborado pelo conjunto das suas unidades acadêmicas (Faculdades, Institutos e Escolas) e se comprometeu com uma expansão de vagas discentes da ordem de 30%. Enfrentar e superar o desafio de expandir a universidade mantendo a qualidade do fazer acadêmico nas dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão transcende em muito a mera execução de obras civis que tem sido “apontada” pela candidatura da situação como a sua “marca” para pleitear a reeleição.
A candidatura Palharini conseguiu reunir em torno de si, talvez pela primeira vez na UFF e apesar de um contexto explícito de forte pressão fisiológica e clientelista, marca essa sim da gestão atual, a grande maioria dos quadros progressistas da universidade com visão acadêmica e estratégica. É a oportunidade que a UFF tem de fazer um acerto de contas com sua história, elevando o seu padrão de gestão institucional ao nível de qualidade e competência do seu corpo docente e técnico-administrativo, que têm garantido na ponta uma ação institucional progressista apesar dos dirigentes reacionários que se apossaram do poder na Universidade.
sábado, 24 de outubro de 2009
A UFF e o Planejamento
O planejamento é “o cálculo que precede e preside a ação”, conforme o definia Carlos Matus, Ministro do Planejamento do ex-presidente Salvador Allende do Chile. Portanto, o planejamento não é apenas o que precede a ação, o que vem antes de iniciar o trabalho concreto mas também o que preside, o que dirige, o que acompanha e o que aperfeiçoa a ação, corrigindo os desvios e melhorando os cálculos das próximas ações.
Essa idéia do planejamento é tão antiga que podemos encontrá-la até mesmo na Bíblia, no Evangelho Segundo São Lucas, onde Jesus chama a atenção para a importância de se calcular previamente as coisas para depois não ficar com obras pela metade. Jesus apresenta o exemplo de um homem que queria construir uma torre e tinha que calcular antes pra ver se conseguiria chegar até o fim com os recursos que dispunha ou que poderia obter. Veja como Jesus conta o caso em Lucas 14, 28-30:
Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: este homem começou a edificar e não pôde acabar.
Nenhuma organização, pública ou privada, nenhuma instância de Governo, seja Federal, Estadual ou Municipal pode dispensar o planejamento de suas ações sem sérias conseqüências para os seus próprios objetivos, para a sua Missão. No caso do setor público o planejamento é uma necessidade legal pois trata-se de condição fundamental para o uso transparente de recursos públicos.
Paradoxalmente, no entanto o Reitor da UFF não partilha desse pensamento. Até onde podemos acompanhar insiste em não compreender e/ou utilizar as boas práticas e os dispositivos do planejamento. O Orçamento e a Prestação de Contas anuais por exemplo, que poderiam ser a vitrine de uma condução democrática, transparente e eficiente da universidade, são transformados em peças de ficção, despojados totalmente do seu caráter e da sua força como instrumentos do planejamento, desrespeitando inclusive o Conselho Universitário e o Conselho de Curadores que são os órgãos que devem aprovar, no final das contas, estes documentos.
O Orçamento Anual, cuja proposta inicial, definida através de um levantamento intitulado Quadro de Detalhamento de Despesa (QDD), deve ser enviada ao MEC no primeiro semestre do ano anterior ao ano cujo orçamento se elabora, não reproduz nunca as demandas reais da instituição, é preparado de forma burocrática, nos limites finais dos prazos legais, de forma que não possa mesmo ser discutido e muito menos questionado.
A Comissão Mista de Orçamento e Metas, um espaço de planejamento institucional democrático e aberto criado em 2003 e que se reúne toda semana no Instituto de Física para discutir, elaborar e propor o Plano de Desenvolvimento Institucional da UFF, tenta avançar progressivamente para além da mera discussão dos 17% de OCC atribuídos aos programas do PDI, mas não consegue obter as informações necessárias, não tem acesso à caixa-preta das chamadas despesas fixas que consomem 73% dos recursos de OCC e não possui informações acerca dos valores operados via fundação de apoio, que manipula anualmente um montante de recursos que já ultrapassa todo o orçamento de custeio e capital da própria universidade.
A Prestação de Contas Anual, que por determinação do Conselho Universitário deveria ser apresentada e examinada quadrimestralmente, não é apresentada nos prazos corretos e a prestação do final do ano é apresentada em reunião extraordinária do CUV convocada com prazos exíguos, que impedem definitivamente qualquer conselheiro de examinar minimamente o documento. Na prestação de contas de 2008 pude constatar, e denunciei no próprio plenário do CUV, a existência de problemas de estrutura, de linguagem e de matemática no documento apresentado, que fora encaminhado ao Conselho nas vésperas da sessão extraordinária. Pesa sempre sobre os conselheiros a ameaça de que se não aprovarem aquela prestação de contas tal como está a universidade ficará sem orçamento no ano seguinte. Agindo dessa forma com a Prestação de Contas perde-se a oportunidade de utilizá-la para aperfeiçoar as bases orçamentárias da instituição, verificando onde houve discrepâncias, avaliando-se suas causas, formulando ações corretivas e melhorando o próprio orçamento do ano seguinte.
Por que o dirigente máximo da universidade age dessa maneira? Sabemos que os neo-liberais de todos os matizes e os autoritários de todas as vertentes nunca gostaram de planejamento, argumentando que o “mercado” planeja sozinho. De fato o planejamento, quando bem feito, deixa claro quais são os investimentos e forma de alocação de recursos desejados pela comunidade, respeita as prioridades definidas por esta através dos mecanismos democráticos e elimina ou reduz significativamente a chamada “política de balcão”, pedra de toque do dirigente clientelista que busca transformar a alocação de recursos públicos em um favor que presta à comunidade. Este dirigente adora dizer que passando por ele está resolvido e pra isso ele precisa de recursos não transparentes. A universidade já tem uma estrutura que facilita este tipo de prática que é um culto à personalidade elevadíssimo centrado na pessoa do reitor, o Magnífico.
Vivemos particularmente um momento em que todas as universidades federais do país não apenas tiveram aumento nos seus orçamentos anuais como também, por conta do processo de expansão, tiveram acesso a recursos para investimentos, obras, contratação de professores e técnico-administrativos como não acontecia há muitos anos. Tudo isso vinculado a um Acordo de Metas assinado com o Ministério da Educação que fixa resultados esperados em termos de expansão do número de vagas que não são fáceis de serem alcançados. Usar os recursos repassados fora do que fora planejado, segundo critérios não transparentes e não discutidos com a comunidade acadêmica, pode comprometer seriamente nos próximos anos a integridade do fazer acadêmico e a autonomia didático-pedagógica, financeira e administrativa da instituição.
Embora tenha havido o “cálculo que precede” no início da expansão, liderado por equipes indicadas no Conselho Universitário e pela Comissão Mista de Orçamento e Metas, não está havendo na medida necessária o “cálculo que preside”, quando o recurso já está na universidade e passa a ser tratado como capital político de interesse particular do Reitor. É hora portanto das forças progressistas e democráticas da universidade ficarem atentas sobre o que irá acontecer com os dois instrumentos centrais do planejamento que são, para utilizar a terminologia do Carlos Matus, “o cálculo que precede” (o Orçamento 2010) e “o cálculo que preside” (Prestação de Contas 2009) a ação. Não é prudente deixar de examinar com cuidado estes instrumentos para que não suceda com a nossa universidade o que poderia ocorrer com o tal homem relatado por Jesus no Evangelho de Lucas que construía um torre sem os cuidados necessários para que ela não ficasse inacabada.
Essa idéia do planejamento é tão antiga que podemos encontrá-la até mesmo na Bíblia, no Evangelho Segundo São Lucas, onde Jesus chama a atenção para a importância de se calcular previamente as coisas para depois não ficar com obras pela metade. Jesus apresenta o exemplo de um homem que queria construir uma torre e tinha que calcular antes pra ver se conseguiria chegar até o fim com os recursos que dispunha ou que poderia obter. Veja como Jesus conta o caso em Lucas 14, 28-30:
Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: este homem começou a edificar e não pôde acabar.
Nenhuma organização, pública ou privada, nenhuma instância de Governo, seja Federal, Estadual ou Municipal pode dispensar o planejamento de suas ações sem sérias conseqüências para os seus próprios objetivos, para a sua Missão. No caso do setor público o planejamento é uma necessidade legal pois trata-se de condição fundamental para o uso transparente de recursos públicos.
Paradoxalmente, no entanto o Reitor da UFF não partilha desse pensamento. Até onde podemos acompanhar insiste em não compreender e/ou utilizar as boas práticas e os dispositivos do planejamento. O Orçamento e a Prestação de Contas anuais por exemplo, que poderiam ser a vitrine de uma condução democrática, transparente e eficiente da universidade, são transformados em peças de ficção, despojados totalmente do seu caráter e da sua força como instrumentos do planejamento, desrespeitando inclusive o Conselho Universitário e o Conselho de Curadores que são os órgãos que devem aprovar, no final das contas, estes documentos.
O Orçamento Anual, cuja proposta inicial, definida através de um levantamento intitulado Quadro de Detalhamento de Despesa (QDD), deve ser enviada ao MEC no primeiro semestre do ano anterior ao ano cujo orçamento se elabora, não reproduz nunca as demandas reais da instituição, é preparado de forma burocrática, nos limites finais dos prazos legais, de forma que não possa mesmo ser discutido e muito menos questionado.
A Comissão Mista de Orçamento e Metas, um espaço de planejamento institucional democrático e aberto criado em 2003 e que se reúne toda semana no Instituto de Física para discutir, elaborar e propor o Plano de Desenvolvimento Institucional da UFF, tenta avançar progressivamente para além da mera discussão dos 17% de OCC atribuídos aos programas do PDI, mas não consegue obter as informações necessárias, não tem acesso à caixa-preta das chamadas despesas fixas que consomem 73% dos recursos de OCC e não possui informações acerca dos valores operados via fundação de apoio, que manipula anualmente um montante de recursos que já ultrapassa todo o orçamento de custeio e capital da própria universidade.
A Prestação de Contas Anual, que por determinação do Conselho Universitário deveria ser apresentada e examinada quadrimestralmente, não é apresentada nos prazos corretos e a prestação do final do ano é apresentada em reunião extraordinária do CUV convocada com prazos exíguos, que impedem definitivamente qualquer conselheiro de examinar minimamente o documento. Na prestação de contas de 2008 pude constatar, e denunciei no próprio plenário do CUV, a existência de problemas de estrutura, de linguagem e de matemática no documento apresentado, que fora encaminhado ao Conselho nas vésperas da sessão extraordinária. Pesa sempre sobre os conselheiros a ameaça de que se não aprovarem aquela prestação de contas tal como está a universidade ficará sem orçamento no ano seguinte. Agindo dessa forma com a Prestação de Contas perde-se a oportunidade de utilizá-la para aperfeiçoar as bases orçamentárias da instituição, verificando onde houve discrepâncias, avaliando-se suas causas, formulando ações corretivas e melhorando o próprio orçamento do ano seguinte.
Por que o dirigente máximo da universidade age dessa maneira? Sabemos que os neo-liberais de todos os matizes e os autoritários de todas as vertentes nunca gostaram de planejamento, argumentando que o “mercado” planeja sozinho. De fato o planejamento, quando bem feito, deixa claro quais são os investimentos e forma de alocação de recursos desejados pela comunidade, respeita as prioridades definidas por esta através dos mecanismos democráticos e elimina ou reduz significativamente a chamada “política de balcão”, pedra de toque do dirigente clientelista que busca transformar a alocação de recursos públicos em um favor que presta à comunidade. Este dirigente adora dizer que passando por ele está resolvido e pra isso ele precisa de recursos não transparentes. A universidade já tem uma estrutura que facilita este tipo de prática que é um culto à personalidade elevadíssimo centrado na pessoa do reitor, o Magnífico.
Vivemos particularmente um momento em que todas as universidades federais do país não apenas tiveram aumento nos seus orçamentos anuais como também, por conta do processo de expansão, tiveram acesso a recursos para investimentos, obras, contratação de professores e técnico-administrativos como não acontecia há muitos anos. Tudo isso vinculado a um Acordo de Metas assinado com o Ministério da Educação que fixa resultados esperados em termos de expansão do número de vagas que não são fáceis de serem alcançados. Usar os recursos repassados fora do que fora planejado, segundo critérios não transparentes e não discutidos com a comunidade acadêmica, pode comprometer seriamente nos próximos anos a integridade do fazer acadêmico e a autonomia didático-pedagógica, financeira e administrativa da instituição.
Embora tenha havido o “cálculo que precede” no início da expansão, liderado por equipes indicadas no Conselho Universitário e pela Comissão Mista de Orçamento e Metas, não está havendo na medida necessária o “cálculo que preside”, quando o recurso já está na universidade e passa a ser tratado como capital político de interesse particular do Reitor. É hora portanto das forças progressistas e democráticas da universidade ficarem atentas sobre o que irá acontecer com os dois instrumentos centrais do planejamento que são, para utilizar a terminologia do Carlos Matus, “o cálculo que precede” (o Orçamento 2010) e “o cálculo que preside” (Prestação de Contas 2009) a ação. Não é prudente deixar de examinar com cuidado estes instrumentos para que não suceda com a nossa universidade o que poderia ocorrer com o tal homem relatado por Jesus no Evangelho de Lucas que construía um torre sem os cuidados necessários para que ela não ficasse inacabada.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Entrevista na Comunidade Discutindo Literatura do ORKUT
Fui convidado na semana passada (de 04 a 10/10/09)para dar uma entrevista de uma semana de duração na Comunidade do Orkut chamada "Discutindo Literatura". Aceitei sem saber ao certo como funcionava o processo. Nem mesmo ouvira falar de uma entrevista que durasse uma semana. Qual não foi minha surpresa ao viver e conhecer a partir de dentro esse fantástico modo de utilização do Orkut. Aliás tenho me surpreendido a cada dia com as possibilidades de uso das ferramentas da web, particularmente no campo da educação.
Pensando bem, não era pra ser diferente já que se trata de modos de se operar em rede, com todo o potencial de produção de encontros, sinapses e significados que estas possibilitam. Lembrei-me do livro do Manuel Castels que li nos anos 90 intitulado "Sociedade em Rede - A Era da Informação: Economia, sociedade e cultura", que então me parecera algo muito futurista. Eu procurava me informar sobre impactos da rede no mundo da produção e do trabalho e Castels falava de sociedade e cultura. Mas agora percebo como estas coisas estavam lá!
Relendo agora algumas coisas de Castels na web (minha curiosidade foi aguçada!), encontro, em uma entrevista que ele concedeu em 2008 para o jornal "El Pais", a afirmação de que o poder tem medo da internet. Sim, porque segundo ele o "poder" sempre se baseou no controle das pessoas, através da informação e da comunicação e a internet não é possível de ser controlada. Castels afirma que participara em inúmeras comissões assessoras de governos e instituições e que a pergunta que todos sempre fizeram era: como podemos controlar a internet? E resposta que ele dava era sempre a mesma: não podem.
Então vida longa a internet! Vida longa a liberdade!
Os que quiserem ler a entrevista podem encontrá-la no link:
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=3332336&tid=5388801823126707875&start=1
Pensando bem, não era pra ser diferente já que se trata de modos de se operar em rede, com todo o potencial de produção de encontros, sinapses e significados que estas possibilitam. Lembrei-me do livro do Manuel Castels que li nos anos 90 intitulado "Sociedade em Rede - A Era da Informação: Economia, sociedade e cultura", que então me parecera algo muito futurista. Eu procurava me informar sobre impactos da rede no mundo da produção e do trabalho e Castels falava de sociedade e cultura. Mas agora percebo como estas coisas estavam lá!
Relendo agora algumas coisas de Castels na web (minha curiosidade foi aguçada!), encontro, em uma entrevista que ele concedeu em 2008 para o jornal "El Pais", a afirmação de que o poder tem medo da internet. Sim, porque segundo ele o "poder" sempre se baseou no controle das pessoas, através da informação e da comunicação e a internet não é possível de ser controlada. Castels afirma que participara em inúmeras comissões assessoras de governos e instituições e que a pergunta que todos sempre fizeram era: como podemos controlar a internet? E resposta que ele dava era sempre a mesma: não podem.
Então vida longa a internet! Vida longa a liberdade!
Os que quiserem ler a entrevista podem encontrá-la no link:
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=3332336&tid=5388801823126707875&start=1
terça-feira, 29 de setembro de 2009
APESAR DE VOCÊ, AMANHÃ HÁ DE SER OUTRO DIA!
Amigos da UFF em Volta Redonda,
Trabalhei como engenheiro na Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda de 1981 a 1992, quando pedi meu desligamento pois passara em concurso público para o Departamento de Engenharia de Produção da UFF em Niterói. Foram anos heróicos, quando Volta Redonda era "área de segurança nacional" mas insistia em ser portadora de "indignação" contra a ditadura. O saudoso Henfil, irmão do Betinho, havia lançado uma campanha nacional do INDIGNE-SE e Volta Redonda era referência de resistência e luta por uma sociedade democrática. Inúmeros foram os exemplos de combatividade desta cidade que repercutiram no país inteiro. Em 1988 Volta Redonda experimentou a violência dos ditadores com o assassinato de quatro operários que lutavam por melhores condições de vida e de trabalho. A repercussão disso foi que em São Paulo, contra todos os prognósticos estatísticos, Luiza Erundina torna-se prefeita da cidade. Em Volta Redonda as Comunidades Eclesiais de Base floresceram e foram exemplos pro país inteiro de como o povo unido pode resistir e fazer avançar a democracia.
Vejo que os tempos mudaram mas essa característica da resistência, da combatividade e da ética continua viva em Volta Redonda. Nossa Universidade vive um dos momentos de maior truculência e grosseria de gestão. Um Reitor autoritário e antidemocrático tira e põe dirigentes conforme sua lógica tacanha de ganhos políticos imediatos, de olho na sua re-eleição no ano que vem, jogando por terra o sonho que acalentamos de criar uma UFF no interior mais autônoma, independente e capaz de criar e sustentar projetos político-pedagógicos inovadores. E é justamente Volta Redonda que desponta como uma luz no fim do túnel pra dizer: "o rei está nu".
Tenho acompanhado todas as intervenções do "Pensamento Acadêmico UFF Volta Redonda" e me sinto orgulhoso de saber que o medo não paralisou toda a universidade como cheguei a pensar.
Amanhã (30/09/09)tem Conselho Universitário e estou disposto a fazer ecoar o grito não apenas de Volta Redonda mas também de Rio das Ostras, de Friburgo e de todos os lugares onde o braço covarde da truculência tenta passar atestado de incapacidade para nossos colegas professores, servidores técnico-administrativos e estudantes de que não podem se auto-governar: ELEIÇÕES JÁ EM TODOS OS PÓLOS!
Saudações universitárias,
Emmanuel Paiva de Andrade
Vice-Reitor
Trabalhei como engenheiro na Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda de 1981 a 1992, quando pedi meu desligamento pois passara em concurso público para o Departamento de Engenharia de Produção da UFF em Niterói. Foram anos heróicos, quando Volta Redonda era "área de segurança nacional" mas insistia em ser portadora de "indignação" contra a ditadura. O saudoso Henfil, irmão do Betinho, havia lançado uma campanha nacional do INDIGNE-SE e Volta Redonda era referência de resistência e luta por uma sociedade democrática. Inúmeros foram os exemplos de combatividade desta cidade que repercutiram no país inteiro. Em 1988 Volta Redonda experimentou a violência dos ditadores com o assassinato de quatro operários que lutavam por melhores condições de vida e de trabalho. A repercussão disso foi que em São Paulo, contra todos os prognósticos estatísticos, Luiza Erundina torna-se prefeita da cidade. Em Volta Redonda as Comunidades Eclesiais de Base floresceram e foram exemplos pro país inteiro de como o povo unido pode resistir e fazer avançar a democracia.
Vejo que os tempos mudaram mas essa característica da resistência, da combatividade e da ética continua viva em Volta Redonda. Nossa Universidade vive um dos momentos de maior truculência e grosseria de gestão. Um Reitor autoritário e antidemocrático tira e põe dirigentes conforme sua lógica tacanha de ganhos políticos imediatos, de olho na sua re-eleição no ano que vem, jogando por terra o sonho que acalentamos de criar uma UFF no interior mais autônoma, independente e capaz de criar e sustentar projetos político-pedagógicos inovadores. E é justamente Volta Redonda que desponta como uma luz no fim do túnel pra dizer: "o rei está nu".
Tenho acompanhado todas as intervenções do "Pensamento Acadêmico UFF Volta Redonda" e me sinto orgulhoso de saber que o medo não paralisou toda a universidade como cheguei a pensar.
Amanhã (30/09/09)tem Conselho Universitário e estou disposto a fazer ecoar o grito não apenas de Volta Redonda mas também de Rio das Ostras, de Friburgo e de todos os lugares onde o braço covarde da truculência tenta passar atestado de incapacidade para nossos colegas professores, servidores técnico-administrativos e estudantes de que não podem se auto-governar: ELEIÇÕES JÁ EM TODOS OS PÓLOS!
Saudações universitárias,
Emmanuel Paiva de Andrade
Vice-Reitor
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
De Sucupiras e Odoricos: dores de parto de uma universidade que teima em não ser como o Senado
Esta semana, na luta surda que se trava na Universidade Federal Fluminense em torno da sucessão do atual reitor, cuja eleição deve ocorrer em maio de 2010, um professor da Escola de Engenharia publicou um e-mail para a comunidade acadêmica onde se percebe que o silêncio dos cemitérios, por mais que agrade aos Odoricos Paraguaçus de todos os tempos, não conseguirá jamais calar a voz da academia na sua busca da excelência crítica do ensino superior. Sensibilizado pela fala do colega da engenharia resolvi responder à provocação, botando mais lenha na fogueira. Eis a íntegra da minha resposta, seguida pela mensagem do colega da engenharia.
Prezado colega Heraldo,
Peço que você publique esse meu comentário-resposta para o mesmo universo de pessoas que receberam a sua comunicação inicial. Isso é um princípio da democracia que julgo importante e que tenho certeza que compartilhamos.
Quero me solidarizar inteiramente com a sua postulação. Podemos ter todas as divergências em questões substantivas mas não tenho nenhuma dúvida em afirmar que estamos entre os que almejam e lutam por uma universidade pública de qualidade, competente e capaz de levar a bom termo a missão constitucional de fazer com autonomia e de forma indissociável o ensino, a pesquisa e a extensão no nosso país.
Desde que recebi há dois dias atrás o informe do INEP acerca do IGC que me preparava para fazer a avaliação que você tão bem fez, antecipando questões que precisam ser objeto de análise cuidadosa das instâncias responsáveis por políticas institucionais na nossa universidade, quais sejam o Conselho Universitário, Conselho de Ensino e Pesquisa e o Conselho de Curadores. Precisamos abandonar a prática de querer transformar tudo em mera peça de campanha, divulgando o que interessa e não se manifestando sobre o que obriga a reflexões. Foi assim que aconteceu com o resultado do "Webometrics Ranking of World Universities", que por colocar a UFF em 23o. lugar no ranking da América Latina mereceu destaque na nossa página institucional, diferentemente do que aconteceu com a publicação do IGC que coloca a UFF com o mais baixo índice entre as universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro e por essa razão não é sequer divulgado.
A Universidade deve ser o lugar por excelência das conversações tecno-politicas, científicas e culturais e, por essa razão, vejo com bons olhos todos os que não temem o debate, como é o seu caso. Expor-se é o método da ciência, ao contrário do esconder-se que é o método da baixa-política que leva a escândalos e atos secretos como o que vive atualmente a mais alta instância política do nosso país, o Senado Federal.
Estamos vivendo neste exato momento uma situação absolutamente esdrúxula em torno da tentativa da cúpula dirigente da universidade (da qual estou fora, mesmo sendo, infelizmente, o Vice-Reitor de um Reitor autoritário e anti-democrático com o qual não compactuo definitivamente há um bom tempo) de escamotear, procrastinar ou descumprir a decisão já tomada pelo Conselho Universitário de realizar um plebiscito sobre a questão dos cursos pagos na universidade.
O método do autoritarismo é sempre o mesmo: ao invés do debate, as manobras procrastinatórias e regimentais que operam no sentido de impedir que a universidade fale, se manifeste, se expresse. Recentemente escrevi no meu blog (http://blog-do-emmanuel.blogspot.cm) um artigo intitulado “Quem tem medo de Virginia Wolf?” onde procuro refletir porque que os reacionários têm tanto medo do debate, preferindo a fraude ao enfrentamento. Curioso é que este não parece ser o comportamento dos meus colegas professores que coordenam cursos pagos na universidade e preferem debater abertamente com a comunidade acerca da relevância social e estratégica do que fazem do que serem prisioneiros dos “falsos protetores” que criam de um lado dificuldades para venderem de outro, as facilidades.
Recentemente comentei em um e-mail restrito aos que trabalham no meu Gabinete, mas que acabou vazando pra boa parte da UFF, sobre um processo de “sucupirização” da nossa universidade, numa referência à saudosa criatividade de Dias Gomes que retratou tão bem a baixa política no nosso país através da novela “O Bem Amado”, projetando a triste figura de um Odorico Paraguaçu, cuja única finalidade como dirigente máximo da cidade de Sucupira, na sua política de resultados, era encontrar um “morto” pra poder inaugurar o cemitério que se tornara a sua obra de maior relevância.
Vivemos situação não muito diferente na nossa universidade. O REUNI trouxe uma quantidade de recursos de toda ordem para a universidade, incluindo recursos de capital para a construção de prédios e reformas, recursos de pessoal, com a contratação de centenas de professores e técnicos, e recursos para organização da gestão, com CDs e FGs que estão sendo distribuídos fartamente segundo uma lógica meramente eleitoreira (evidentemente que toda lógica eleitoreira procura também fazer algumas coisas acertadas, até mesmo pra justificar a sua verdadeira intenção eleitoreira). Alguns colegas com quem tenho comentado essas questões levantam sua preocupação no sentido de que tomara que o “morto” almejado pelo neo-Odorico não seja a própria UFF.
Apenas pra se ter uma idéia do que estou falando, há pouco tempo atrás o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, exibindo resultados e metas físicas invejáveis, inclusive aprovadas na prestação de contas de 2008 da universidade, foi afastado de suas funções numa jogada absolutamente micro-geo-política. A violência do ato foi encoberta entretanto com um convite para que o ex-Pró-Reitor se tornasse assessor do reitor com direito a gratificação compensatória. Agora aconteceu a mesma coisa no caso do Pólo de Volta Redonda. O ex-Diretor, com resultados considerados altamente satisfatórios do ponto de vista operacional, mas envolvido em disputas políticas locais, é substituído por um interventor de fora de Volta Redonda (como você muito bem registra na sua carta) mas, para deter a indignação que tal ato arbitrário poderia provocar, o diretor afastado é convidado a ser “assessor” do Reitor. Nada mais provinciano, fisiológico e desonesto do ponto de vista da lógica acadêmica.
Enfim, prezado Heraldo, estou plenamente de acordo com você quando diz que “diferenças políticas entre grupos numa universidade existem, são legítimas e normais. Numa universidade democrática, essas diferenças são resolvidas no voto”. Também eu penso assim e propugno não apenas eleições diretas já no Pólo de Volta Redonda como também no de Rio das Ostras, de Friburgo e de Campos. O maior disparate que já ouvi de um dirigente universitário foi quando o reitor da UFF, numa reunião com dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores da UFF, afirmou que não fazia eleição em Volta Redonda porque lá nem todos podiam votar então ele votava por todos. Definitivamente, não quero esta UFF e para evitarmos a dolorosa vivência do outono do patriarca proponho que lutemos pela primavera da liberdade.
Saudações acadêmicas,
Emmanuel
O IGC E O OUTONO
Heraldo, professor do Departamento de Engenharia Mecânica
“A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.”
Ricardo Reis, 1-7-1916
Caros colegas, eu havia decidido ficar um bom tempo sem me manifestar publicamente em relação a assuntos da UFF. Contudo, fatos recentes me convenceram a retomar a nossa saudável corrente de discussão.
Para alguém que esteja recebendo pela primeira vez uma mensagem minha, a regra é simples – caso não deseje receber mais mensagens, basta responder a esse e-mail solicitando ficar fora da lista. Muitos me perguntam porque eu estou adotando um estilo eventualmente hermético e metafórico em algumas das minhas mensagens, parecendo um daqueles filmes antigos do Carlos Saura – difíceis de entender devido a uma linguagem muito cifrada. Eu explico - assim como o famoso diretor espanhol, sei que em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Meus motivos são parecidos com os dele, é claro.
O IGC 2008
Recentemente foi divulgado pelo MEC o Índice Geral de Cursos da Instituição (IGC) referente ao ano de 2008. Já comentei bastante sobre este índice no ano passado e, caso haja interesse, posso enviar por e-mail a quem solicitar o material em minhas mãos (metodologia, dados estatísticos , etc.). Basicamente o IGC é um indicador para avaliação de instituições de educação superior que considera, em sua composição, a qualidade dos cursos de graduação e de pós-graduação (mestrado e doutorado). No que se refere à graduação, é utilizado o CPC (conceito preliminar de curso) que leva em consideração, além de resultados de avaliação de desempenho de estudantes, infra-estrutura e instalações, recursos didático-pedagógicos e corpo docente. No que se refere à pós-graduação, é utilizado o conceito dos cursos na CAPES. O resultado final está em valores contínuos (que vão de 0 a 500) e em faixas (de 1 a 5).
O IGC da UFF foi de 306 em 2007 e de 308 pontos em 2008, sendo a universidade pública com o IGC mais baixo no Estado do Rio de Janeiro.
Algumas observações:
(1) a avaliação da UFF, como no ano passado, foi excelente para os cursos de Pós-graduação e ruim para os cursos de graduação, que puxaram a média para baixo. A evolução crescente da pesquisa e pós-graduação na UFF é mais facilmente verificada quando olhamos o "Webometrics Ranking of World Universities" no qual ficamos em 23o lugar na América latina. No IGC, somos a 41a universidade no Brasil. No ano passado, se o conceito Médio da Graduação fosse 3,5 em 5 no lugar de 2,51 a UFF ficaria em primeiro lugar no estado do Rio de Janeiro entre as universidades públicas. Como a nota 2,51 não reflete a qualidade real dos nossos cursos de graduação, a média vai para baixo.
(2) É bastante claro que o IGC só é adequado para comparar instituições de porte semelhante, já que não leva em conta a quantidade de alunos (apenas as médias são consideradas) e tende a favorecer as estruturas menores, com menos cursos e, portanto, mais “enxutas”. Também é claro que as avaliações dos cursos de graduação são problemáticas, principalmente nas universidades com muitos cursos, devido a boicote de alunos.
(3) Contudo, nada disso explica porque na graduação a UFF ficou tão atrás de tantas universidades federais de porte semelhante (UFMG, UFRGS, UFRJ), todas com o mesmo problema de boicote de alunos. A explicação, caso exista, é complexa. Contudo, não creio que o principal problema esteja exclusivamente nos alunos de graduação. Apresento uma informação para que cada membro da comunidade da UFF possa montar o seu quebra-cabeças: TODOS os dirigentes dessas universidades mais bem avaliadas deram a mesma explicação para uma das chaves para o seu relativo sucesso – qualidade do corpo docente com maioria de doutores em regime de DE, fazendo a justa ligação entre pesquisa e pós-graduação com a graduação. A composição do corpo docente de uma IFES tem peso expressivo nas avaliações de cursos, seja na graduação seja na pós-graduação e tem, também, peso expressivo na determinação do seu orçamento. Num momento de expansão da UFF, com um aumento muito expresivo das contratações de docentes, temos que observar as políticas de contratação das universidades mais bem avaliadas e refletir sobre esse assunto.
O OUTONO DO PATRIARCA
Recentemente fui informado de que teria havido a substituição do Diretor do Pólo de Volta Redonda. Seria um fato relativamente dentro da normalidade que, contudo, me chamou a atenção devido a forma como a substituição foi anunciada publicamente. O novo diretor teria sido anunciado como uma “pessoa jurídica” que estaria ocupando a função não pelos méritos própios mas como um interventor representante da Escola de Engenharia de Niterói no Pólo. Essa intervenção objetivaria “unir” grupos políticos com opiniões divergentes sobre a administração do pólo. A intervenção de uma Unidade de Niterói num Pólo do interior é fato muito inusitado. Mais ainda porque não reflete a opinião dos docentes da Escola de Engenharia de Niterói. Se foi verdade a informação passada para mim, alguém usou o nosso (da Escola de Engenharia) nome em vão.
Não sei porque, ao saber desse fato, me lembrei do senador José Sarney e de um artigo sobre ele na Folha de São Paulo intitulado “o Outono do Patriarca” (título de um livro do Gabriel Garcia Marques sobre a decadência de um cacique político). O artigo diz: “Na solidão do poder, Sarney vive seu outono do patriarca ... mergulhou no vício solitário do poder e vive o autêntico outono do patriarca. ...” . O Senador Sarney, com uma biografia indubitavelmente rica, ao iniciar um claro processo de decadência política no Maranhão, buscou sobrevida política aceitando se submeter politicamente ao senador Renan Calheiros, atropelando muitos aliados para se firmar como Presidente do Senado. Resultado – uma das maiores crises políticas dos últimos anos no Congresso Nacional.
Diferenças políticas entre grupos numa universidade existem, são legítimas e normais. Numa universidade democrática, essas diferenças são resolvidas no voto. Para mim é inacreditável que num pólo com tantos cursos (graduação e pós-graduação) e tantos docentes, não haja ninguém competente o suficiente para geri-lo de forma eficiente. Aparentemente o Colegiado do PUVR votou uma moção a favor de uma consulta eleitoral para a sua Direção, aprovada por unanimidade. Vamos ver onde isso vai parar. Aguardo um posicionamento do CUV. Eleições diretas no PUVR e nos demais pólos!
Saudações acadêmicas,
Heraldo
Prezado colega Heraldo,
Peço que você publique esse meu comentário-resposta para o mesmo universo de pessoas que receberam a sua comunicação inicial. Isso é um princípio da democracia que julgo importante e que tenho certeza que compartilhamos.
Quero me solidarizar inteiramente com a sua postulação. Podemos ter todas as divergências em questões substantivas mas não tenho nenhuma dúvida em afirmar que estamos entre os que almejam e lutam por uma universidade pública de qualidade, competente e capaz de levar a bom termo a missão constitucional de fazer com autonomia e de forma indissociável o ensino, a pesquisa e a extensão no nosso país.
Desde que recebi há dois dias atrás o informe do INEP acerca do IGC que me preparava para fazer a avaliação que você tão bem fez, antecipando questões que precisam ser objeto de análise cuidadosa das instâncias responsáveis por políticas institucionais na nossa universidade, quais sejam o Conselho Universitário, Conselho de Ensino e Pesquisa e o Conselho de Curadores. Precisamos abandonar a prática de querer transformar tudo em mera peça de campanha, divulgando o que interessa e não se manifestando sobre o que obriga a reflexões. Foi assim que aconteceu com o resultado do "Webometrics Ranking of World Universities", que por colocar a UFF em 23o. lugar no ranking da América Latina mereceu destaque na nossa página institucional, diferentemente do que aconteceu com a publicação do IGC que coloca a UFF com o mais baixo índice entre as universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro e por essa razão não é sequer divulgado.
A Universidade deve ser o lugar por excelência das conversações tecno-politicas, científicas e culturais e, por essa razão, vejo com bons olhos todos os que não temem o debate, como é o seu caso. Expor-se é o método da ciência, ao contrário do esconder-se que é o método da baixa-política que leva a escândalos e atos secretos como o que vive atualmente a mais alta instância política do nosso país, o Senado Federal.
Estamos vivendo neste exato momento uma situação absolutamente esdrúxula em torno da tentativa da cúpula dirigente da universidade (da qual estou fora, mesmo sendo, infelizmente, o Vice-Reitor de um Reitor autoritário e anti-democrático com o qual não compactuo definitivamente há um bom tempo) de escamotear, procrastinar ou descumprir a decisão já tomada pelo Conselho Universitário de realizar um plebiscito sobre a questão dos cursos pagos na universidade.
O método do autoritarismo é sempre o mesmo: ao invés do debate, as manobras procrastinatórias e regimentais que operam no sentido de impedir que a universidade fale, se manifeste, se expresse. Recentemente escrevi no meu blog (http://blog-do-emmanuel.blogspot.cm) um artigo intitulado “Quem tem medo de Virginia Wolf?” onde procuro refletir porque que os reacionários têm tanto medo do debate, preferindo a fraude ao enfrentamento. Curioso é que este não parece ser o comportamento dos meus colegas professores que coordenam cursos pagos na universidade e preferem debater abertamente com a comunidade acerca da relevância social e estratégica do que fazem do que serem prisioneiros dos “falsos protetores” que criam de um lado dificuldades para venderem de outro, as facilidades.
Recentemente comentei em um e-mail restrito aos que trabalham no meu Gabinete, mas que acabou vazando pra boa parte da UFF, sobre um processo de “sucupirização” da nossa universidade, numa referência à saudosa criatividade de Dias Gomes que retratou tão bem a baixa política no nosso país através da novela “O Bem Amado”, projetando a triste figura de um Odorico Paraguaçu, cuja única finalidade como dirigente máximo da cidade de Sucupira, na sua política de resultados, era encontrar um “morto” pra poder inaugurar o cemitério que se tornara a sua obra de maior relevância.
Vivemos situação não muito diferente na nossa universidade. O REUNI trouxe uma quantidade de recursos de toda ordem para a universidade, incluindo recursos de capital para a construção de prédios e reformas, recursos de pessoal, com a contratação de centenas de professores e técnicos, e recursos para organização da gestão, com CDs e FGs que estão sendo distribuídos fartamente segundo uma lógica meramente eleitoreira (evidentemente que toda lógica eleitoreira procura também fazer algumas coisas acertadas, até mesmo pra justificar a sua verdadeira intenção eleitoreira). Alguns colegas com quem tenho comentado essas questões levantam sua preocupação no sentido de que tomara que o “morto” almejado pelo neo-Odorico não seja a própria UFF.
Apenas pra se ter uma idéia do que estou falando, há pouco tempo atrás o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, exibindo resultados e metas físicas invejáveis, inclusive aprovadas na prestação de contas de 2008 da universidade, foi afastado de suas funções numa jogada absolutamente micro-geo-política. A violência do ato foi encoberta entretanto com um convite para que o ex-Pró-Reitor se tornasse assessor do reitor com direito a gratificação compensatória. Agora aconteceu a mesma coisa no caso do Pólo de Volta Redonda. O ex-Diretor, com resultados considerados altamente satisfatórios do ponto de vista operacional, mas envolvido em disputas políticas locais, é substituído por um interventor de fora de Volta Redonda (como você muito bem registra na sua carta) mas, para deter a indignação que tal ato arbitrário poderia provocar, o diretor afastado é convidado a ser “assessor” do Reitor. Nada mais provinciano, fisiológico e desonesto do ponto de vista da lógica acadêmica.
Enfim, prezado Heraldo, estou plenamente de acordo com você quando diz que “diferenças políticas entre grupos numa universidade existem, são legítimas e normais. Numa universidade democrática, essas diferenças são resolvidas no voto”. Também eu penso assim e propugno não apenas eleições diretas já no Pólo de Volta Redonda como também no de Rio das Ostras, de Friburgo e de Campos. O maior disparate que já ouvi de um dirigente universitário foi quando o reitor da UFF, numa reunião com dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores da UFF, afirmou que não fazia eleição em Volta Redonda porque lá nem todos podiam votar então ele votava por todos. Definitivamente, não quero esta UFF e para evitarmos a dolorosa vivência do outono do patriarca proponho que lutemos pela primavera da liberdade.
Saudações acadêmicas,
Emmanuel
O IGC E O OUTONO
Heraldo, professor do Departamento de Engenharia Mecânica
“A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.”
Ricardo Reis, 1-7-1916
Caros colegas, eu havia decidido ficar um bom tempo sem me manifestar publicamente em relação a assuntos da UFF. Contudo, fatos recentes me convenceram a retomar a nossa saudável corrente de discussão.
Para alguém que esteja recebendo pela primeira vez uma mensagem minha, a regra é simples – caso não deseje receber mais mensagens, basta responder a esse e-mail solicitando ficar fora da lista. Muitos me perguntam porque eu estou adotando um estilo eventualmente hermético e metafórico em algumas das minhas mensagens, parecendo um daqueles filmes antigos do Carlos Saura – difíceis de entender devido a uma linguagem muito cifrada. Eu explico - assim como o famoso diretor espanhol, sei que em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Meus motivos são parecidos com os dele, é claro.
O IGC 2008
Recentemente foi divulgado pelo MEC o Índice Geral de Cursos da Instituição (IGC) referente ao ano de 2008. Já comentei bastante sobre este índice no ano passado e, caso haja interesse, posso enviar por e-mail a quem solicitar o material em minhas mãos (metodologia, dados estatísticos , etc.). Basicamente o IGC é um indicador para avaliação de instituições de educação superior que considera, em sua composição, a qualidade dos cursos de graduação e de pós-graduação (mestrado e doutorado). No que se refere à graduação, é utilizado o CPC (conceito preliminar de curso) que leva em consideração, além de resultados de avaliação de desempenho de estudantes, infra-estrutura e instalações, recursos didático-pedagógicos e corpo docente. No que se refere à pós-graduação, é utilizado o conceito dos cursos na CAPES. O resultado final está em valores contínuos (que vão de 0 a 500) e em faixas (de 1 a 5).
O IGC da UFF foi de 306 em 2007 e de 308 pontos em 2008, sendo a universidade pública com o IGC mais baixo no Estado do Rio de Janeiro.
Algumas observações:
(1) a avaliação da UFF, como no ano passado, foi excelente para os cursos de Pós-graduação e ruim para os cursos de graduação, que puxaram a média para baixo. A evolução crescente da pesquisa e pós-graduação na UFF é mais facilmente verificada quando olhamos o "Webometrics Ranking of World Universities" no qual ficamos em 23o lugar na América latina. No IGC, somos a 41a universidade no Brasil. No ano passado, se o conceito Médio da Graduação fosse 3,5 em 5 no lugar de 2,51 a UFF ficaria em primeiro lugar no estado do Rio de Janeiro entre as universidades públicas. Como a nota 2,51 não reflete a qualidade real dos nossos cursos de graduação, a média vai para baixo.
(2) É bastante claro que o IGC só é adequado para comparar instituições de porte semelhante, já que não leva em conta a quantidade de alunos (apenas as médias são consideradas) e tende a favorecer as estruturas menores, com menos cursos e, portanto, mais “enxutas”. Também é claro que as avaliações dos cursos de graduação são problemáticas, principalmente nas universidades com muitos cursos, devido a boicote de alunos.
(3) Contudo, nada disso explica porque na graduação a UFF ficou tão atrás de tantas universidades federais de porte semelhante (UFMG, UFRGS, UFRJ), todas com o mesmo problema de boicote de alunos. A explicação, caso exista, é complexa. Contudo, não creio que o principal problema esteja exclusivamente nos alunos de graduação. Apresento uma informação para que cada membro da comunidade da UFF possa montar o seu quebra-cabeças: TODOS os dirigentes dessas universidades mais bem avaliadas deram a mesma explicação para uma das chaves para o seu relativo sucesso – qualidade do corpo docente com maioria de doutores em regime de DE, fazendo a justa ligação entre pesquisa e pós-graduação com a graduação. A composição do corpo docente de uma IFES tem peso expressivo nas avaliações de cursos, seja na graduação seja na pós-graduação e tem, também, peso expressivo na determinação do seu orçamento. Num momento de expansão da UFF, com um aumento muito expresivo das contratações de docentes, temos que observar as políticas de contratação das universidades mais bem avaliadas e refletir sobre esse assunto.
O OUTONO DO PATRIARCA
Recentemente fui informado de que teria havido a substituição do Diretor do Pólo de Volta Redonda. Seria um fato relativamente dentro da normalidade que, contudo, me chamou a atenção devido a forma como a substituição foi anunciada publicamente. O novo diretor teria sido anunciado como uma “pessoa jurídica” que estaria ocupando a função não pelos méritos própios mas como um interventor representante da Escola de Engenharia de Niterói no Pólo. Essa intervenção objetivaria “unir” grupos políticos com opiniões divergentes sobre a administração do pólo. A intervenção de uma Unidade de Niterói num Pólo do interior é fato muito inusitado. Mais ainda porque não reflete a opinião dos docentes da Escola de Engenharia de Niterói. Se foi verdade a informação passada para mim, alguém usou o nosso (da Escola de Engenharia) nome em vão.
Não sei porque, ao saber desse fato, me lembrei do senador José Sarney e de um artigo sobre ele na Folha de São Paulo intitulado “o Outono do Patriarca” (título de um livro do Gabriel Garcia Marques sobre a decadência de um cacique político). O artigo diz: “Na solidão do poder, Sarney vive seu outono do patriarca ... mergulhou no vício solitário do poder e vive o autêntico outono do patriarca. ...” . O Senador Sarney, com uma biografia indubitavelmente rica, ao iniciar um claro processo de decadência política no Maranhão, buscou sobrevida política aceitando se submeter politicamente ao senador Renan Calheiros, atropelando muitos aliados para se firmar como Presidente do Senado. Resultado – uma das maiores crises políticas dos últimos anos no Congresso Nacional.
Diferenças políticas entre grupos numa universidade existem, são legítimas e normais. Numa universidade democrática, essas diferenças são resolvidas no voto. Para mim é inacreditável que num pólo com tantos cursos (graduação e pós-graduação) e tantos docentes, não haja ninguém competente o suficiente para geri-lo de forma eficiente. Aparentemente o Colegiado do PUVR votou uma moção a favor de uma consulta eleitoral para a sua Direção, aprovada por unanimidade. Vamos ver onde isso vai parar. Aguardo um posicionamento do CUV. Eleições diretas no PUVR e nos demais pólos!
Saudações acadêmicas,
Heraldo
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