sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Clube de leitura e de vida!

Hoje, 27/02/09, foi dia de reunião do Clube de Leitura que se encontra para conversar na Livraria da UFF toda última sexta-feira de cada mes. O livro discutido foi "Órfãos do Eldorado", de Milton Hatoum, publicado pela Companhia das Letras em 2008.
Decididamente, este é um grupo bom de se pertencer. Seu traço mais marcante, se eu tivesse de escolher um, é a liberdade. Liberdade que permite que "leigos" e "ordenados" defendam seus pontos de vista com uma singeleza que, confesso, é rara, particularmente na academia, tão marcada pela mau humorada "meritocracia".
Enquanto isso, vai desfilando pela nossa frente a cegueira em ensaio de um Saramago, o emburrado Casmurro de Machado, a maluquinha da filha do escritor do Gustavo Bernardo (que brindou o grupo com uma participação riquíssima... a melhor oficina sobre como um escritor produtivo escreve de que eu já participei) e agora a rica contação de "causos" mitológicos, alinhavados em torno de uma estória de amor e sacanagem (no sentido político do termo, o mais usual evidentemente) que têm o horizonte do Eldorado (um navio que afunda, uma ilha que abriga leprosos e um lugar perdido no horizonte). Legal... muito legal...
Tudo isso acontecendo dentro de uma livraria universitária, com cafezinho, pãozinho de queijo e cachacinha especial da safra do diretor da EDUFF, o escritor Mauro Romero, que além de livros científicos na sua linha de pesquisa em DST (doenças sexualmente transmissíveis), também é um contador de "Casos e Causos Médicos".
O grupo já escolheu democrática e anárquicamente o que vai discutir nos próximos dois meses: no final de março "A elegância do ouriço" de Muriel Barbery e no final de abril "Dois irmãos", novamente do Milton Hatoum.
De fato... este é um grupo bom de pertencer...

Faculdades em transição

Por Editorial - Folha de São Paulo, 27/02
27 de fevereiro de 2009 14:45
É descabida a reivindicação, pelo Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, de uma linha de financiamento subsidiada com dinheiro público para enfrentar supostos efeitos da crise econômica em seu ramo de negócio. A sobra de vagas nas instituições privadas antecede a crise e decorre, em realidade, de uma saturação. Não há por que socorrer o setor, que deve ajustar-se por mecanismos de mercado.
A razão mais saliente a desaconselhar o socorro está na substancial ajuda oficial que universidades particulares já recebem. Com o Programa Universidade para Todos (ProUni) a União abrirá mão de R$ 394 milhões em impostos neste ano para custear a ocupação de vagas privadas por alunos de baixa renda. Em 2008, foram 225 mil vagas.
Se 42% das instituições ouvidas em pesquisa do sindicato setorial paulista anunciam que terão menos alunos novos em 2009, isso não resulta de falta de capital. O subsídio que o BNDES já considera conceder serviria só para dar fôlego a cursos insustentáveis, por falta de demanda, e muitas vezes de má qualidade. Condicionar o crédito ao cumprimento de padrões de ensino, como se cogita, parece apenas um pretexto, pois já é obrigação do Estado exigir essa qualidade.
O crescimento vigoroso do ensino superior privado nos últimos anos teve o mérito de oferecer oportunidades de estudo a uma grande parcela da sociedade que estava tradicionalmente alijada desse benefício. No Estado de São Paulo, o número de instituições passou de 266 para 496 de 1997 a 2007, um aumento de 86%. Em escala nacional, o setor crescia a taxas de 10% anuais, mas de 2006 a 2007 estacionou.
O segmento deve agora passar por uma consolidação natural, processo do qual se espera que emerjam instituições mais robustas -sob o prisma financeiro e o pedagógico.

COMENTÁRIO MEU: Só faltava essa... no momento em que o Estado brasileiro começa a recuperar o sistema público de educação superior, com expansão de vagas e reestruturação, ter que socorrer um sistema privado que inchou artificialmente, no rastro do estrangulamento do sistema público e, salvo raríssimas e honrosas exceções, com ensino de péssima qualidade.
Está certo o editorial da Folha no diagnóstico de "descabida" aplicado à reivindicação. Descabida e inoportuna!

Universidade pública cobrava mensalidade

Por O Globo, 27/02
27 de fevereiro de 2009 06:57
BRASÍLIA. O Ministério da Educação (MEC) determinou nesta quinta-feira à Fundação Universidade do Tocantins (Unitins) que deixe de cobrar mensalidades em seus cursos de graduação à distância. O MEC ainda proibiu a instituição de realizar vestibulares e admitir novos alunos em todos os polos de ensino. Em 2008, segundo o MEC, 35 mil alunos ingressaram na Unitins.
A Unitins é a segunda maior instituição de ensino de graduação à distância do país, com cerca de 93 mil estudantes, segundo o ministério. A universidade é vinculada ao governo de Tocantins. O MEC entende que, na condição de instituição pública, ela desrespeita a Constituição por não oferecer cursos gratuitos.
A medida cautelar da Secretaria de Educação à Distância exige que a Unitins ofereça cursos gratuitos e assine um termo de compromisso com o MEC para melhorar o ensino. O secretário de Educação Superior, Carlos Eduardo Bielschowsky, disse que a Unitins expandiu-se em parceria irregular com a empresa privada a Eadcon.
Procurada pelo GLOBO, a Eadcon não se manifestou.

O Globo, 27/02

Comentário meu: É importante que a educação superior tenha saído do limbo e esteja na mídia no Brasil. Isso acontece tanto devido ao tamanho da expansão que se constrói a partir do REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, Decreto 6.096 de 2007) quanto, infelizmente, por conta de alguns escândalos envolvendo as relações entre as Universidades e suas Fundações de Apoio. O descontrole que permitia que situações como a descrita acima acontecessem felizmente começa a ser enfrentado. É importante neste processo que não se "jogue a criança fora junto com a água suja do banho", como reconhece a sabedoria popular. É neste contexto que surge e toma corpo a discussão em torno da "autonomia universitária", sobre a qual falarei mais pra frente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

De sístoles e diástoles... carnaval e quaresma...

Terça-feira de carnaval, terça-feira gorda, mardi gras... preparemo-nos porque amanhã começa a jornada de 40 dias magros, de penitência e privação... amanhã começa a Quaresma. Qual o sentido disso no mundo de hoje?
Roger Haight, teólogo católico e professor de teologia histórica e sistemática na Weston Jesuit School of Theology (Cambridge, Massachusetts), no livro "O futuro da cristologia" (São Paulo: Paulinas, 2008), ao tentar caracterizar o ambiente intelecutual dominante no mundo globalizado, chamado por alguns de uma nova cultura pós-moderna, aponta para quatro características que poderiam ser tomadas como distintivas de uma nova maneira que pessoas instruídas vêem o mundo hoje.
A primeira das quatro características trata de uma consciência histórica radical. Se na modernidade a evolução parecia implicar um desenvolvimento progressivo, a pós-modernidade suspeita dos universais, sendo tomada por um sentimento de que a existência humana está à deriva, orientada tão somente pela força interna da natureza e da história.
A segunda característica se refere a emergência de uma consciência social crítica. Noções de verdade e valor tornam-se mais tímidas, mais locais, não transcendendo facilmente uma organização social particular. A racionalidade autônoma do iluminismo é constrangida, tornando-se mais modesta pela alteração do arcabouço de julgamento.
A terceira característica aponta para uma consciência pluralista. A cultura ocidental não mais controla o centro pois não há um único centro, mas tão-somente uma variedade de centros locais de pensamento. Nenhum indivíduo ou grupo ou cultura individual pode esboçar ou possuir uma metanarrativa que abranja o todo. A verdade só é alcançável em fragmentos com os quais se deve trabalhar coletivamente não para superar o pluralismo mas para se beneficiar dele.
Finalmente, a quarta característica informa que a pós-modernidade implica uma consciência cósmica. Está se tornando cada vez mais difícil conceber que o homo sapiens terreno seja o centro da realidade e não um epifenômeno.
Essas características no seu conjunto - consciência histórica radical, social crítica, pluralista e cósmica - apontam para uma cultura intelectual que funciona como uma espécie de premissa implícita e filtro heurístico para avaliar o que se apresenta como pretensão à verdade. E a primeira exigência do que se apresenta como pretensão à verdade é a não-hipocrisia.
No Evangelho de Mateus (Mt 6, 1-6.16-18) que dá início à liturgia da quaresma, Jesus vai chamar a atenção para as três dimensões de relacionamento - com o outro (dar esmolas), consigo mesmo (jejuar) e com Deus (orar) - que podem ser feitos com disposições e motivações bastante diferentes. Ao relacionamento que é feito para ser visto pelos homens e não pelo relacionamento em si mesmo, Jesus dá o nome de hipocrisia, de não-verdade, cuja recompensa será o fato mesmo de ser visto (afinal, era pra isso que ele se destinava). Note-se que há uma recompensa real, seja qual for o modo com que se constituam tais relacionamentos.
Para o relacionamento em Verdade, Jesus chega a propor um programa: que a mão esquerda não saiba o faz a direita quando estiver dando esmola; entrar no quarto e fechar a porta quando estiver orando; perfumar a cabeça e lavar o rosto quando estiver jejuando.
Este parece ser um programa que dialoga com uma consciência histórica radical, social crítica, pluralista e cósmica. Um programa que, superando a hipocrisia, toma a sério a construção de relacionamentos transformadores. A recompensa... o Pai, que vê o que está escondido, proverá.
Comecei estes comentários na terça-feira gorda mas só consegui acabá-los (pelo menos provisoriamente) na quarta-feira de cinzas, aguardando ansiosamente a Páscoa que me espera no final da travessia.
Shalom! שָׁלוֹם

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Pra começo de conversa!

Bom, dizem que tudo na vida tem um começo. Até mesmo fazer um blog, tornar-se um "bloggeiro" (quem diria!!!). No meu caso particular (deve ser só o meu mesmo), essa história teve várias fases. Primeiro, um certo desprezo, de quem se sente superior a essas novidades, coisa de gente que não tem o que fazer. Gente que não consegue extrair o máximo que as tecnologias até aqui existentes podem fornecer em matéria de prazer e facilidades.
Depois veio uma certa sensação de que esse negócio parece ser interessante mesmo mas eu não tenho muito saco. Essa fase evolui rapidamente para uma sensação de que só eu que não tenho blog. Aí o cosmo inteiro parece conspirar contra você. Todo jornal que cai nas nossas mãos vem com alguma reportagem sobre as maravilhas revolucionárias do blog. Todo grupinho de amigos, toda roda de cerveja, só se fala no tal do blog. Aí não tem jeito. Meio sem jeito, você vai, de mansinho, e arrisca o primeiro pitaco.
De repente estou aqui. Falando do começo. Bem no começo.